from: We Don't Have To Dance

We Don’t Have To Dance – Part 1

by victor

“Já faz três dias inteiros que ele não sai deste quarto doutor. Começo a temer pela saúde do Sr. Alcantto” – O mordomo da família Alcantto suspira lentamente enquanto abre a enorme porta-dupla que da entrada à adega da mansão – “Por favor doutor, tire-o daqui de dentro”
“Farei o meu melhor, lhe prometo” – O jovem disse com sua voz calma e firme enquanto adentrou para o escuro cômodo.

Se não soubesse de antemão que aquilo era uma adega, o jovem doutor jamais teria descoberto para que aquele espaço era utilizado.
Havia cheiro de mofo e álcool no ar. Paredes que outrora foram brancas, agora apresentam enormes manchas marrons e grudentas sobre suas tintas. Poltronas; sofás; cadeiras; mesas e outros moveis, todos destruídos e caídos no chão escuro quarto, fazendo companhia para o que sobrou de diversas garrafas de whisky e vodka que estavam espalhadas pelo chão. O álcool remanescente desses pedaços de vidro se juntou e formou inúmeras pequenas poças, que agora possuem moscas e abelhas disputando espaço em cima delas.
No canto oposto ao da grande porta fica uma enorme parede feita somente de vidro revestida de insulfilm, ela agora encontra-se completamente coberta por negras cortinas. Contudo, ainda é possível ver pequenas faíscas de luz saindo do topo da parede, onde algumas poucas janelas não se encontravam completamente fechadas.
“Certamente as abelhas e moscas entraram por ali” – Pensou o jovem médico.
Enquanto continuava andando pelo quarto, seus olhos se acostumaram melhor com o nível de luz do local. Com isso, pode ver bem ao fundo, escorado sobre uma lareira já apagada, o corpo do Sr. Alcantto, que, agora, se encontrava olhando diretamente para o jovem.

“Então é isso a que o grandioso Senhor Vinicius de Alcantto, o jovem e grandioso prodígio do mercado financeiro, se rebaixou? Esperava muito mais de você. Ainda mais te conhecendo como conheço.” – Disse o médico enquanto se aproxima do jovem bilionário e se agacha diante dele
“Cale-se Derek, você sabe muito bem o que ela significa para mim” – Murmura o Senhor Alcantto ao passo em que duas pequenas lagrimas se formam em seu rosto. – “ Ela era meu mundo, minha vida. Eu dei tudo de mim para ela, assim como sei que ela deu tudo de si para mim. E, ainda assim, ela me apunhalou pelas costas, assim como todos. ”

Derek podia observar que seu antigo amigo sofrera muito nos últimos três dias. Seu rosto branco, angular e de belas feições está manchado do choro. Sua camisa ficou completamente molhada com uma grotesca e nauseante mistura de álcool e suor. Seus cabelos, antes lisos e arrumados, se apresentam destruídos, sem brilho, sem vida e sem rumo. Seus olhos e rosto, antes tão cheios de vida e felicidade, agora não mostram nada, além de um desesperador vazio.
Alcantto estava com medo do que seria dele dali para frente, e Derek sabia disso.

“Você sabe que não pode ficar aqui para sempre, não sabe? ” – Ao dizer isso, o médico pousa sua mão direita confortavelmente no ombro de Vinicius.
“Sim, eu sei. ” – Vinicius retira a mão de seu amigo do ombro e, apoiado no corpo de Derek, se levanta do chão com dificuldade e passa a mirar a porta da adega. – “Mas eu não sei o que fazer quando sair. ”
“Simples” – Derek coloca o braço do Senhor Alcantto em volta de seu ombro para ajudá-lo a levantar – “Primeiro, irei cuidar de você e lhe arranjar novas roupas. Depois, você só precisa fazer o que você sempre fez, se divertir. ”
Os dois amigos andam em direção a porta. Enquanto Derek ri de sua própria frase, Vinicius Alcantto esboça um pequeno sorriso por saber que ainda pode contar com seu velho amigo.

A água corrente do chuveiro bate em seu corpo fazendo um percurso por seu abdômen e pernas delineadas. Suas mãos ensaboam seu cabelo para livra-lo do sebo que o estava dominando. Com os olhos fechados, Alcantto somente escuta o barulho da água, procurando não pensar em nada além disso. Esse era seu primeiro banho em três dias, e ele pretendia aproveita-lo ao máximo.
A temperatura do banho estava baixa. Muito mais baixa que o habitual para ele. A maioria das pessoas não aguentaria essa temperatura, mas Vinicius não se importa. O choque que cada gota fazia em seu corpo o machucava, mas ele gostava disso. Essa dor, esse choque, elas o faziam se sentir vivo. E, naquele momento, isso era tudo o que ele queria.

“… Você só precisa fazer o que sempre fez, se divertir. ” – As palavras de Derek ainda reverberam na mente do jovem enquanto ele saia de seu já longo banho. – “Como irei me divertir agora que minha maior parceira me deixou. Derek, seu idiota. ”

Logo ao sair do banho, o garoto se deparou com seu mordomo organizando três mudas de roupas diferentes na cama de sua suíte.

“Thomas, que roupas são essas? ” – Vinicius indagou o idoso mordomo enquanto olhava detalhadamente para cada uma das mudas.
“São as roupas que o Sr. Derek me pediu para lhe entregar, senhor. ” – Respondeu o fiel escudeiro do Sr. Alcantto.
“Humpf, porque não estou surpreso. ” – Suas mãos foram em direção a uma das mudas de roupa para poder observá-la melhor. – “Pelo menos ele tem bom gosto. ” Disse enquanto observava um terno em suas mãos.

Pelo tecido, o corte e a costura, Vinicius rapidamente notou que ele era feito à mão. O paletó e a calça eram da cor preta, sua preferida, enquanto a blusa que o médico escolheu para que usasse era de um tom azul escurecido, com pequenos bordados brancos espalhados por ela. A gravata por sua vez, era prateada, um pequeno detalhe extravagante no estilo que Derek sempre gostou.

“Pelo visto gostou de minha escolha não? ” – Afirmou Derek enquanto entrava no quarto de seu amigo – “Afinal, você está olhando para o terno tem pelo menos 10 minutos. ” – Um pequeno sorriso debochado se formou em sua boca.
“O que? Não é possível. Não me distraio assim tão fácil” – Rapidamente, Vinicius começa a passar o olho por seu quarto, procurando por um relógio para provar sua tese.

“Não? Então quer dizer que você notou Thomas saindo de seu quarto? E também que criou essa poça embaixo de você por divertimento. ” – O tom sarcástico do médico era quase palpável

De fato, abaixo dos pés do jovem magnata havia um grande acumulo de água que se espalhava pelo granito branco que formava o chão de sua luxuosa suíte. Seu corpo, por outro lado, se encontrava praticamente seco após tanto tempo tendo passado.

“Você terá uma gripe se ficar desse jeito por muito tempo, ainda mais em seu estado. “ – Afirmou Derek, chegando mais perto do corpo de seu amigo, e fazendo com o outro virasse a cabeça enquanto seu rosto ficava rubro. – “Além disso, hoje você irá para um baile. Não poderá ir a ele se ficar doente. ” – O sorriso no rosto de Derek apenas aumentava enquanto dizia essas palavras.
“Não tenho nenhum compromisso para hoje. Tratei de cancelar todos para o resto da semana. ” – Alcantto saiu de perto de seu amigo, e com um andar forte foi em direção a seu Closet. Antes de chegar porem, ouviu a voz de seu amigo.
“Então porque você está levando o terno para o Closet? Você sabe melhor do que eu que você precisa disso. Você tem que sair de casa e mudar de ares um pouco. ” – O médico permaneceu imóvel, somente movimentando um pouco de sua cabeça para a direção onde Vinicius estava.

Vinicius sabia que o amigo tinha razão, mesmo querendo que ele não tivesse. Ele precisa de algo para se esquecer dela. Mesmo isso não preenchesse seu vazio, ele teria uma boa distração por algum tempo. E agora, era exatamente disso que ele precisava.

“Que tipo de baile? “ – Alcantto olhou friamente nos olhos de Derek.
“Um baile de máscaras. Escolha a sua e me encontre nesse endereço às 22 horas. ” – Derek jogou um cartão com um convite na cama de seu amigo e foi em direção a porta para sair. Mas, parou antes para lhe dar um aviso – “Lhe espero lá. “ – Disse saindo de forma tão súbita quanto entrou.

Vinicius Alcantto viu de relance o cartão e o convite. Seu coração batia forte; sua visão ficou turva; sua cabeça estava latejando.
Ele estava com medo
Tinha medo de ir até o baile. A muito ele não ia a eventos como esse desacompanhado, ou pelo menos, não sem ela. De um certo modo, ele sentia que estava traindo sua antiga parceira. E isso o deixa imóvel, sem respiração, inconsolável.

“Não. Não. Não. Não! Ela não está mais comigo, e tenho que aceitar isso. Não posso ficar preso ao passado. Pelo menos não, enquanto o futuro está na minha frente. ”